sexta-feira, 30 de julho de 2010

Viver não dói (Carlos Drummond de Andrade)

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos, por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante
e paga pouco, mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim
que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Alguma reflexão hoje?

Alguma coisa útil pra falar? E para pensar? Alguma observação pelo menos?
É, ainda ta difícil fazer, ser, olhar, ouvir.
Que o nosso mundo anda de cabeça para baixo todos já sabemos (quem não sabe, não sabe por que fez questão de ignorar), que tudo ta perdido é fato; que ainda temos chance também é fato.
Mas ainda temos chance de que?
De fazer mais? De ser mais?
A maioria esmagadora sem razão (sem emoção) insistem manter fechada a porta que poderia nos trazer a salvação, ou não.
O fato é que se o mundo anda em círculos, nem adianta mais tentar, mas se ele anda em linha reta, talvez algum dia, ele chega em algum lugar.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ninguém teve culpa.

Ela partiu.
Deixou com ele todo o desejo de ambos.
Ele ficou desconsolado, não acreditava mais na vida. Tanto tempo esperando para dizer o quanto a amava. E ela não deu chance, não deu sequer a escolha. Fez sozinha, não pensou no mesmo futuro que ele havia sonhado, não sonhou os mesmos filhos, as férias de fim de ano na praia.
Ela partiu.
Foi por que sabia que não adiantava ficar. Todos sabem que não se pode esperar nada de alguém. Ela partiu antes que ele falasse, antes que ele a partisse.

sábado, 24 de julho de 2010

Enquanto eu tento, qualquer outro se desorienta
Finjo entender
Finjo a indiferença
Busco dentro de mim
Palvras soltas em algum silêncio

...?!Silêncio...?!

O que mais nos resta
Além do que ficou pra trás?
Será que isso basta?
Ou deveríamos querer mais?

E aí meu amigo, cadê você?

Onde ficaram todas as noites que passamos em claro? Claro que foram inúteis. Olhos e ouvidos que não viram nem ouviram toda a nossa conversa. Ela era sempre guiada por mente que não tinham nada demais a dizer. Lá fora, o tempo não colaborava. Queríamos fazer músicas que falassem de toda a hipocrisia que nos rodeava. Eu tentei te convencer várias vezes que não valia a pena sacrificar a carne em nome da fama. Você argumentava que tinha um ideal pra passar. Eu dizia que isso nada adiantava. Eu tentei lutar contra a tua prisão. Se éramos proibidos de pensar pelo mundo lá de fora, deveríamos ter continuado pensando somente entre nós, como fazíamos naquelas noites que já não existem. Você não me ouviu, falo que o que importava era lutar pela liberdade. Você foi a luta enquanto eu segui cantando o que as rádios me deixavam cantar. Eu segui sozinho, pensava nas mesmas coisas de antes, mas você estava na rua, abaixo de chuva lutando pelos demais, por aqueles que não calaram o seu nome. E agora meu amigo, tantos anos depois percebo que eu tinha a razão, pois você lutou e as coisas não mudaram. Você deixou que te matassem. Você mesmo se matou.
Hoje moro num país que é controlado pela esperança de algo melhor. Se ainda existe alguém que luta, esses são poucos, raros. Eu tinha razão. A coisa só mudou de nome.
Democracia!
Escolher ainda é ilusão.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Enquanto o mundo gira...

Até que a vida chegue num estágio final
Tudo o que somos, somos a todo instante
E o instante nos muda
Nos deixando inconstantes
Conscientes de tudo que nos rodeia
E do nada que deixamos levar

E quem disse que nada se transforma,
Se transformou em produto
De compra, venda e troca.

E a vida que era digna
Foi passada a limpo
Por todas as coisas
Que não voltam atrás.
Acoredei de madrugada
Perdi o sono
Perdi o rumo

Perdi tanto de mim nesses ultimos dias
Que os instantes mais breves
Parecem eternos

Não sinto mais o mesmo mundo
E até mesmo o nada
Já não é igual

E lá se foi mais um vez
Mais uma chance de mudar
O que eu ainda não consegui entender.